Por que toda área de regulação precisa de um cronograma — e não só de um regulamento

Implantar regulação é gerir projeto, não escrever política. Por que o cronograma é a peça mais ignorada — e mais decisiva.

Quando assumi a implantação da Área de Regulação na CPFL Transmissão, a primeira pergunta que me fizeram foi: “Quando fica pronto o normativo?”

Errada. Mas compreensível.

A maioria das organizações ainda trata a implantação de uma área regulatória como um exercício de redação. Você escreve a política, cria os fluxogramas, aprova em comitê e… acha que está feito.

Não está.

O problema com a abordagem centrada em normativos

Um normativo diz o que deve ser feito. Mas não diz quando, por quem e com qual sequência.

Em uma área recém-criada, essas três dimensões são exatamente o que falta. O normativo pressupõe que processos, responsáveis e sistemas já existem. Na implantação, você está construindo tudo isso do zero — ao mesmo tempo.

O resultado de ignorar o cronograma é previsível: a área nasce no papel mas nunca opera de verdade. Os prazos regulatórios chegam, e a equipe improvisa. O improviso vira rotina. A rotina vira risco.

O que um cronograma de implantação precisa ter

Ao longo da implantação na CPFL, aprendi que um bom cronograma regulatório tem cinco camadas:

1. Marcos regulatórios externos Datas impostas pela ANEEL ou pelo contrato de concessão não se negociam. São o ponto de partida. Tudo mais se organiza para trás a partir delas.

2. Entregas internas por fase Cada fase tem uma entrega clara: diagnóstico, definição de escopo, construção de processos, teste, implantação. Sem entrega definida, a fase não termina — ela se prolonga indefinidamente.

3. Dependências mapeadas Regulação depende de TI, Jurídico, Contabilidade e Engenharia. Se você não mapeia essas dependências, vai descobri-las no pior momento.

4. Responsável por cada atividade Atividade sem dono é atividade que não será feita. Nomes, não cargos.

5. Indicadores de progresso Não “estamos avançando”. Sim “completamos 14 dos 22 processos previstos para esta fase”.

O cronograma como instrumento de comunicação

O valor mais subestimado do cronograma não é operacional — é comunicacional.

Com um cronograma bem estruturado, você consegue:

  • Reportar o status da implantação para a diretoria em 3 minutos
  • Identificar atrasos antes que virem crises
  • Justificar alocação de recursos com evidência
  • Garantir que áreas parceiras entendam suas dependências

Sem ele, você passa o tempo explicando por que ainda não terminou. Com ele, você passa o tempo gerenciando o que falta.

A lição que levo

Normativos são necessários. Mas são o resultado de uma implantação bem gerida — não o substituto dela.

Se você está implantando ou reestruturando uma área regulatória, comece pelo cronograma. Coloque os marcos externos na linha do tempo. Trabalhe para trás. Defina entregas, responsáveis e dependências.

O regulamento vem depois — e vem melhor, porque você vai entender o processo que está documentando antes de documentá-lo.


Vilmar Bressan é especialista em Governança, Regulação e Finanças com 20+ anos em empresas do setor elétrico. Atua como consultor e conselheiro.