A compra começou a nascer dentro do chat

Tráfego e pedidos por IA triplicaram na Shopify, a Salesforce mediu a jornada nascendo no chat, e o varejo brasileiro já redesenha o checkout pro agente.

Semana passada o Radar mostrou o Brasil começando a construir um protocolo pra pôr a pequena empresa no comércio movido a agentes. Era infraestrutura em obra, sem nada pra usar. Esta semana chegaram três medições independentes dizendo que o comportamento do outro lado já mudou — e não é promessa de fornecedor sobre 2030, é resultado de trimestre e cobertura de evento. O ponto em comum entre elas não é “a IA vende”. É que a porta por onde o cliente entra mudou de lugar.

1. Na Shopify, o tráfego e os pedidos vindos de IA triplicaram em um ano

Nos resultados do segundo trimestre, divulgados em 5 de agosto, a Shopify apresentou o número que virou manchete: o tráfego que chega às lojas por canais de IA triplicou em relação ao ano passado, e os pedidos atribuídos a esses canais triplicaram junto. Mais interessante que o crescimento é o formato dele. Metade das sessões referidas por IA cai direto na página de descrição do produto — duas vezes e meia a taxa da busca tradicional, que fica perto de 20%. E, dos pedidos atribuídos a IA em 2025, 71% vieram de categorias de cauda longa: produto de nicho, não campeão de venda. Duas ressalvas antes de comemorar: os números são da própria Shopify, apresentados numa call para investidores em que a ação subiu quase 20% no dia; e “triplicou” não diz de quanto pra quanto, porque a empresa não abre a fatia absoluta do tráfego.

Por que importa pro seu negócio: a leitura útil não é sobre volume, é sobre onde o cliente entra. Quem chega pela busca costuma cair na home e navegar; quem chega por IA aparece já na página do produto, com a pergunta praticamente respondida. Isso muda a prioridade: descrição completa, preço visível, disponibilidade atualizada e foto que mostra o que precisa ser mostrado deixam de ser capricho e viram a própria vitrine. E o dado da cauda longa é o mais animador pra quem é pequeno — o que a IA está distribuindo bem é justamente o específico, não o genérico.

Fontes: TechCrunch · PYMNTS · Market Business News

2. A Salesforce mediu a mudança de porta — e o tamanho do despreparo

Em 6 de agosto saiu a quarta edição do relatório State of Commerce, da Salesforce, com uma medição mais ampla: 3.450 profissionais de comércio em 20 países, 4.689 consumidores em 8 países e o comportamento de 1,5 bilhão de compradores acompanhado do primeiro trimestre de 2024 ao primeiro de 2026. O uso da busca agêntica como primeiro passo da jornada de compra cresceu 200% em um ano. Entre agosto de 2025 e maio de 2026, a descoberta de produto pela busca tradicional caiu 15% e pelos sites próprios das marcas caiu 7%, enquanto os canais novos cresceram 38%. Do lado das empresas, 86% esperam que os modelos de linguagem se tornem essenciais para descoberta de produto dentro de um ano — mas só 27% têm os dados de cliente unificados e só 32% têm métrica de sucesso de IA definida. Vale o registro: a parte das empresas é autorrelato, e a Salesforce vende a solução para o problema que descreve.

Por que importa pro seu negócio: o par de números que importa é 86% contra 27%. Quase todo mundo já entendeu para onde a coisa vai, e um quarto arrumou a casa. Essa distância é rara e é justamente onde o negócio pequeno leva vantagem: uma rede grande leva um ano e um comitê pra unificar catálogo entre seis sistemas; você resolve o seu numa tarde de sábado. Comece pelo mais chato — uma lista única de produtos ou serviços, com preço, descrição em texto de verdade e o que está disponível hoje, num lugar que uma máquina consiga ler.

Fontes: Salesforce · TechInformed

3. No Brasil, o varejo grande já está redesenhando o checkout pro agente

No mesmo 5 de agosto, a cobertura do Fórum E-Commerce Brasil 2026 mostrou o assunto saindo do painel de tendências e entrando na área de operações. As Lojas Renner apresentaram a “Rê”, uma IA agêntica que monta um look completo e conclui a compra em cerca de dois minutos de conversa, e falaram de 430% de aumento no tráfego vindo de modelos de linguagem. A Yuno tratou de checkout autônomo e de recuperação de pagamentos negados. Os números apresentados no palco são grandes — 700% de crescimento anual no tráfego vindo de agentes, com 31% de conversão — e é exatamente por isso que merecem a ressalva: são dados apresentados por varejista e por fornecedor num evento do setor, sem metodologia pública, sem base absoluta e sem auditoria independente. Servem como sinal de direção, não como referência de mercado.

Por que importa pro seu negócio: não é pra copiar a Renner, é pra ler o movimento. Enquanto o assunto ainda parece futurismo, quem tem verba já está gastando pra ser encontrado pelo agente — e o gasto deles é em integração, catálogo e checkout, não em campanha. A boa notícia é que a base desse trabalho é a mesma pra qualquer tamanho e não custa nada: informação de produto ou serviço completa, atualizada e escrita de um jeito que uma máquina consiga interpretar. A diferença é que a Renner precisa de um projeto pra isso e você precisa de uma tarde.

Fonte: E-Commerce Brasil


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