Escrevemos um guia estratégico sobre inteligência artificial para escritórios de advocacia. Ele fala de jurisprudência, sigilo profissional, a Recomendação 001/2024 da OAB e a LGPD. Mas o capítulo que mais voltou depois de publicado não fala de nenhuma dessas coisas. É uma lista de perguntas de processo e governança para fazer antes de contratar qualquer fornecedor de IA, e nenhuma delas é específica de direito.
A pergunta que vem antes de todas as outras
O erro mais comum em qualquer adoção de IA, em qualquer setor, começa com a pergunta errada: “qual ferramenta eu devo usar?” A pergunta certa vem antes: “qual processo eu quero melhorar?” A ferramenta é consequência de uma resposta, não o ponto de partida.
Não é intuição: é o padrão que aparece toda vez que uma implementação de IA funciona de verdade. Alguém mapeou o processo antes de escolher a tecnologia. O padrão inverso também se repete, só que ao contrário: quem compra a ferramenta primeiro e tenta encaixar o processo depois automatiza a confusão que já existia, só que mais rápido.
Quatro grupos de perguntas de governança, não um checklist de ferramenta
O capítulo final do guia organiza as perguntas em quatro blocos. Valem para qualquer negócio avaliando um fornecedor, consultor ou ferramenta de IA, e valem fora da IA também: para qualquer aquisição de ferramenta ou investimento que o negócio esteja prestes a aprovar. Na prática, são perguntas de governança: quem decide, o que fica registrado, qual é o critério de sucesso e quem responde se o resultado não aparecer.
Sobre os dados. Meus dados saem do meu ambiente? Para onde? Existe contrato que proíbe usar meus dados para treinar o modelo de outra empresa? A arquitetura é nuvem pública, nuvem privada ou modelo local? Toda empresa brasileira que processa dado pessoal é controladora pela LGPD, não só escritório de advocacia.
Sobre o processo. Você começa pela ferramenta ou pelo mapeamento do meu processo? O que fica documentado, para eu não depender de você para sempre? Você já implementou isso num negócio como o meu, e qual foi o resultado medido? Esta é a pergunta que mais separa fornecedor sério de quem está surfando a onda.
Sobre os resultados. Qual é o critério de sucesso que vamos medir? Em quanto tempo eu devo ver resultado? O que acontece se o resultado não aparecer? Sem critério definido antes, qualquer resultado parece bom o suficiente, e qualquer resultado ruim vira “ainda está ajustando”.
Sobre o suporte. Quando a IA errar, porque vai errar, qual é o processo de correção? Quem é responsável pelo ajuste depois da implementação? O que você entrega que eu não consigo fazer sozinho?
A pergunta que resume as quatro
Juntas, as quatro perguntas de governança apontam para uma só: a empresa que você está avaliando está vendendo uma ferramenta, ou está disposta a entender o seu negócio antes de ligar qualquer tecnologia?
É a mesma lógica que sustenta o trabalho que fazemos aqui na Inteligência para Crescer. Antes de qualquer automação, mapeamos o processo que mais depende de quem toca o negócio hoje. A tecnologia entra onde o trabalho é repetitivo, no ritmo que faz sentido para aquele negócio específico, não num pacote fechado que serve para todos igual.
O que fica de fora deste artigo
O mesmo guia que originou essas perguntas detalha os casos reais de escritórios advertidos por citar jurisprudência inventada por IA, as três arquiteturas de segurança de dados e por onde um escritório pequeno deveria começar. Isso é específico de advocacia, por isso ficou de fora daqui.
Vilmar Bressan é fundador da Inteligência para crescer, consultoria que aplica gestão de processos, finanças e inteligência artificial a pequenos e médios negócios.
Se você quer ver as perguntas completas, com a fonte de cada dado por trás delas, baixe gratuitamente o guia “IA na Advocacia”. Ele foi escrito pensando em escritório de advocacia, mas as provocações e questionamentos servem para qualquer segmento.