Estudo de mercado não é achismo: o que dá para enxergar com dado público de verdade

Toda apresentação tem um slide de 'mercado em expansão' sem fonte. Como uma base oficial, atualizada todo mês, muda essa conversa.

Quase toda apresentação comercial tem o mesmo slide: um gráfico subindo para a direita, a frase “mercado em expansão” e, embaixo, em letra pequena, nenhuma fonte. Funciona porque ninguém para para perguntar de onde veio aquele número. E quando alguém pergunta, a resposta costuma ser uma pesquisa paga, feita uma vez, já desatualizada no mês seguinte.

Existe outra forma de responder essa pergunta, e ela não depende de pesquisa encomendada. Depende de olhar para o dado que o próprio governo já publica, com regularidade, para quem souber onde procurar e como juntar as peças.

As bases que sustentam uma leitura confiável

Nenhuma base sozinha conta a história inteira. O que dá sustentação é a combinação:

Cadastro de empresas ativas da Receita Federal, atualizado todo mês. É a fotografia mais recente de quantos CNPJs existem, onde estão, em que atividade, em que regime tributário (MEI, Simples, fora do Simples) e com que estrutura societária.

Movimentação mês a mês, comparando a foto atual com a anterior. Não é só “quantas empresas existem”, é “quantas abriram e quantas fecharam”, o que separa crescimento real de ruído estatístico.

Dados societários, que mostram idade dos sócios por setor. Isso é o que permite enxergar risco de sucessão: quantas empresas de um setor têm sócio com 61 anos ou mais, sem segunda geração visível no quadro societário.

Censo, PIB e VAB do IBGE, que trazem população, atividade econômica e o peso de cada setor na economia local. É o contraponto estrutural à fotografia mensal do CNPJ, que muda rápido mas não diz nada sobre o tamanho da economia por trás.

Cada uma dessas bases, isolada, já responde alguma coisa. Juntas, permitem fazer pergunta composta: não só “quantas empresas de contabilidade existem numa região”, mas “quantas empresas existem para cada escritório de contabilidade”, que é a pergunta que de fato interessa para quem decide abrir ou expandir um negócio.

Um número que, sem contexto, mentia

Num mês recente de acompanhamento de uma base estadual, o saldo de empresas ativas veio negativo. Primeira leitura, ruim: mais fechamento do que abertura. Olhando mais de perto, quase todo o saldo negativo vinha de inaptidões em massa, decretadas pela própria Receita Federal em datas específicas, atingindo lotes inteiros de CNPJs numa movimentação administrativa, não comercial.

Sem abrir a data de cada baixa e o motivo registrado, o número contava uma história de retração que não existia. Com a abertura, a leitura virou outra: tirando os lotes administrativos, o saldo era positivo, e as regiões mais monitoradas quase não tinham sido atingidas.

É o mesmo problema do slide sem fonte, só que invertido: em vez de número inventado para parecer bom, é número real, mal interpretado, que parece ruim. A defesa nos dois casos é igual: nunca aceitar o número agregado sem abrir o que está dentro dele.

O que dá para fazer com isso, de verdade

Uma base atualizada todo mês, cruzada com dados estruturais, abre possibilidade que uma pesquisa pontual não abre:

Mapear densidade por setor e região. Quantas empresas de um tipo existem para cada grupo de habitantes, comparando regiões entre si em vez de olhar um número solto.

Identificar risco de sucessão como oportunidade. Setores com concentração alta de sócios acima de 60 anos, sem sucessão aparente, são sinal tanto de risco (negócio que pode fechar) quanto de janela (espaço que vai abrir para quem entrar).

Separar abertura de substituição. Uma região pode ter dez aberturas e parecer em alta, enquanto na verdade são dez empresas repondo oito que fecharam no mesmo período. O saldo líquido é o que importa, não o bruto.

Acompanhar regime tributário como termômetro. A proporção entre MEI, Simples e fora do Simples muda com o tempo e indica maturidade do tecido empresarial de uma região, não só o tamanho dele.

Atualizar a leitura todo mês, não uma vez por ano. Decisão de expansão, de abertura de filial ou de ajuste de rota comercial fica mais segura quando apoiada em fotografia recente, não em pesquisa de dois anos atrás republicada com capa nova.

Nenhuma dessas leituras exige adivinhação. Exige pegar o dado que já é público, estruturar, comparar com o mês anterior e perguntar, sempre, o que está por trás do número antes de usá-lo para decidir.

A régua para qualquer estudo de mercado

Antes de confiar num estudo, vale a mesma pergunta de sempre: a base é citada, é pública, é verificável, e é atualizada com alguma frequência? Se a resposta for não para qualquer uma dessas perguntas, o estudo pode estar certo por acaso, mas não dá para saber.


Vilmar Bressan é fundador da Inteligência para Crescer, consultoria que aplica duas décadas de gestão de processos, finanças e inteligência artificial a negócios locais. Um dos produtos da empresa é a leitura e compilação de bases públicas oficiais (Receita Federal, IBGE) para apoiar decisão real de negócio, com a fonte de cada número sempre aberta.

Se sua empresa quer entender o próprio mercado com dado de verdade, em vez de pesquisa genérica, converse sobre o seu desafio.